terça-feira, 22 de setembro de 2009

Margens Plácidas

Hoje, ao chegar do trabalho, encontrei meu filho dedilhando: "Ouviram do Ipiranga as margens plácidas...". Estou entre aqueles que já tiveram o privilégio de receber em casa o ilustre curso d'água citado no Hino Nacional. O Riacho do Ipiranga fez parte de minha infância e minha adolescência. Sempre ia com o Antonio e o César até à beirada do riacho, sede de nosso clube secreto. Apenas um lado da Avenida Tereza Cristina era pavimentado e, nas duas margens, enormes sibipirunas enfeitavam o bairro, resistindo à urbanização de São Paulo. Muitas vezes caíamos com bicicleta e tudo na água, mas isso não tinha maiores consequências além da bronca da mãe. Vacina contra tétano? Bobagem.
Aos nove anos, vi, fascinado, a primeira enchente: as águas correndo ao contrário, rio acima, transbordando das margens, avançando pelos paralelepípedos e calçadas, cobrindo a Tereza Cristina, subindo para a Dom Pedro I. Moradores apatetados entravam na água com seus carros, levantando ondas que batiam nos muros, na vã esperança de conseguir levá-los até suas casas inundadas, para logo adiante deixá-los enguiçados, boiando. Atordoado com a cena inédita, eu me perguntava se aquela água me levaria até Santos. Na casa 111, a água batia nos joelhos. Na 174, já estava no peito... Como se estivesse entrando no mar. Afinal, aquilo era divertido! Na manhã seguinte, porém, acabava a alegria e o cenário era de degradação: aparelhos de rádio, colchões, vitrolas, sofás, poltronas, livros, tudo estava jogado nas calçadas, aguardando o caminhão do lixo. Na sala, o piano de meu pai, enlameado, pingando água suja, o feltro dos martelinhos descolando...
A partir de 1966, as inundações tornaram-se uma constante. Só mudou a qualidade da água: de apenas barrenta, passou a oleosa, fétida, infecciosa. O símbolo da independência nacional agora era um vetor de hepatite e tifo.

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Em 2005, lancei com meus alunos de Direito Ambiental da USF a ideia de criação de um grande parque linear ligando a nascente do Ipiranga, no Jardim Botânico, à sua foz, no Tamanduateí: o "Projeto Margens Plácidas". Por conta disso, quis conversar com pessoas que chegaram a ver o Riacho ainda límpido, muito antes dele ser rebaixado à condição de Córrego. Um deles foi o Enzo, um exímio nadador de 83 anos, que me descreveu a longa caminhada que fazia com os seus amigos, descendo as matas do morro que hoje é a Rua Coronel Diogo. Ao final, o esforço era recompensado com o banho nas margens plácidas do Ipiranga. Outro entrevistado foi meu tio Quim. Ele relembrou histórias que eu já ouvira aos cinco anos, sobre os jogos de futebol nas margens do Ipiranga, os banhos da garotada na "cascatinha" (uma pequena queda d'agua na sua foz), as disputas de natação naquele trecho do Tamanduateí, a morte por afogamento de seu amigo de futebol.
O Riacho do Ipiranga ainda está insepulto. Agonizante. Mas vive, enfim, em sua linda nascente, no Jardim Botânico. Sonho em um dia podermos tirá-lo dessa forma de concreto, arborizar suas margens, desfazer todas as violências praticadas contra ele, repovoá-lo com peixes. Nem que seja apenas para resgatarmos um pouco deste cenário ecológico e histórico, quem sabe no bicentenário da independência do Brasil. Que será, por coincidência, centenário de nascimento de meu tio Quim.PS: Este post é dedicado à memória do tio Quim e do Enzo, dos Rios Itororó, Anhangabaú e Pedra Azul. E, claro, também do velho piano ensopado de meu pai, que nunca ensaiou Francisco Manuel da Silva ou Osório Duque Estrada, mas que interpretava Chopin como ninguém.

2 comentários:

Anônimo disse...
GUi, que bom saber do Eddie, melhor ainda ter de volta o seu grande senso de humor. Vc não deixara de ser um grande ambientalista, ao contrario ira compor uma excelente Sinfonia Verde para um Brasil em estado terminal.
Elisa
24 de Setembro de 2009 16:45

Kriz disse...
Amigo, o que podemos fazer por nossa cidade e seus rios? São Paulo é tão pródiga em cursos d'água, mas todos eles fustigados pelo crescimento desordenado, pelo descaso público e pela população que insiste em desovar suas lembranças em forma sólida nas águas já tão envenenadas. No fim, só nos restará a memória daquilo que foram? Triste isso...Beijos!
25 de Setembro de 2009 08:37

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